Review: “Tenet” de Christopher Nolan

O diretor Christopher Nolan deve ter umas questões a respeito do tempo. O tema se tornou algo recorrente na narrativa ou estrutura de sua recente filmografia. Em “Interestelar” o tempo é distorcido por que os personagens resolvem explorar uns planetas aí perto demais de um buraco negro. Em “Dunkirk“, que segue uma tradicional história da Segunda Guerra Mundial, a estrutura é focada em três linhas de tempo diferentes que progridem em seu próprio ritmo. Seu mais recente trabalho, “Tenet”, pega as duas ideias e brinca com o conceito de tempo tanto na base narrativa quanto na estrutura do filme. Apesar de, em termos de gênero, ser mais similar ao seu já clássico “A Origem” – que falava sobre sonhos, mas não vamos ignorar, tinha uma música na trilha sonora chamada “Time“. Opa, alguém dá um relógio pro moço!

“Tenet” conta a história do nosso protagonista sem nome, que é chamado de Protagonista nos créditos – não estou inventando isso. Ele é um agente de alguma organização secreta, que quase morre quando é contratado por outra organização ainda mais secreta. Esta em particular lida com a investigação de misteriosos objetos que tem sua temporalidade invertida – ao invés de acontecerem do presente ao futuro como, basicamente, tudo em nossa realidade, eles acontecem do futuro rumo ao presente. Se você já tá perdido, não se preocupe, o texto deixa bem claro que “não pense a respeito, apenas sinta”. É uma ideia tão maluca que nem toda a exposição encontrada em “A Origem” daria cabo da loucura.

Mas nosso Protagonista agora tem que impedir a Terceira Guerra Mundial, pois um negociador de armas chamado Sator quer usar essa tecnologia para explodir uma bomba atômica, cujo plutônio está em estado de entropia reversa (???) e se ativado irá destruir o contínuo espaço-tempo. E algo a ver com algoritmos também, mas nessa hora eu já tava completamente confuso. Para isso nosso herói deve se aproximar da trágica Kat, esposa do vilão, presa em um relacionamento abusivo – pois não basta ser um traficante de armas com uma bomba atômica que pode destruir o Universo, você também tem que impedir uma mãe de ter contato com o filho, né colega?

A estrutura inicial do filme segue o esquema típico de narrativas de espionagem, com direito a cientistas explicando tecnologias, chefes de grupos criminosos que são o contato com outros grupos, viagens internacionais, etc… As cenas de ação são interessantes e eficazes, com o diferencial que às vezes algo invertido aparece em tela e fica tudo esquisito. Lá pela metade da narrativa, uma reviravolta acontece e nosso protagonista Protagonista tem que seguir pelo rumo invertido do tempo – onde tudo acontece ao contrário, inclusive os movimentos dele. Visualmente, é uma doideira. Criativo e curioso, sem dúvida. Como recurso meramente visual, o diretor teve uma ideia interessante e resolveu aplica-la, já que alguém segue dando 200 milhões de dólares para ele filmar o que quiser. Novamente, do ponto de vista visual, tudo é muito divertido e emocionante. O clímax, que envolve dois grupos no tempo normal e invertido ao mesmo tempo, é uma loucura impressionante. Do ponto de vista narrativo, não é tão eficaz quanto as loucuras dos sonhos de “A Origem”. As regras parecem mais confusas e, no final, realmente é melhor “não pensar a respeito” e “só sentir” para curtir a experiência.

Acho que a narrativa teria funcionado melhor se na hora de “sentir” algo o texto de Nolan fosse melhor construído. Por exemplo, qual o interesse emocional do Protagonista na história? Ok, ele quer salvar o mundo, mas somente isso basta? A relação que ele desenvolve com Kat, por exemplo, parece muito forçada. Ela em si teria um bom arco na narrativa, já que quer salvar sua história com o filho, e também por ter uma cicatriz emocional na relação com o vilão. Mas “Tenet” não é narrado do ponto de vista dela e sim do protagonista. De maneira tão óbvio que nem se deram ao trabalho de chamá-lo de algo mais discreto do que Protagonista. O máximo que temos de arco emocional para ele é ao final, com seu parceiro Neil, que de fato é uma parceria que cresce ao longo da história. Mas faltou algo além, algo mais pessoal, mas o público investir na aventura – e não se importar tanto com as loucuras da estrutura. Tanto “A Origem” como “Interestelar” mostraram que Nolan sabe usar suas ambições visuais em favor de uma história pessoal e emocional. Em “Tenet” ele não foi tão feliz.

A fotografia tem seus momentos bem bolados.

O elenco é encabeçado por John David Washington, que parece que surgiu ontem em “Infiltrado na Klan” e já está pronto para dominar o mundo. Não sei se “Tenet” foi o melhor veículo para ele como protagonista, mas acredito que ele fez um bom trabalho ainda assim. Elizabeth Debicki, que tem escolhido bons trabalhos desde que despontou em “O Grande Gatsby”, é a âncora emocional da narrativa com Kat e cumpre o papel. Acredito que um texto melhor teria sido excelente para ela, mas, novamente, com o que tinha, fez algo muito bom. Robert Pattinson, que também tem crescido muito como ator desde seus tempos de “Crepúsculo”, é o parceiro Neil. Acredito que havia mais em seu personagem que talvez tenha ficado perdido na ilha de edição. Kenneth Branagh, que fez “Dunkirk”, é o vilão bem malvadão que encontra lá uma razão emocional para ser malvado – não que isso seja usado como justificativa. Mas é bom ter vilões que não são malvados apenas por que não gostam do James Bond. Aaron Taylor-Johnson (“Godzilla”), Himesh Patel (“Yesterday”) e Dimple Kapadia tem papeis menores. Michael Caine, que nunca pode faltar em um filme do Christopher Nolan, recebeu uma cena em restaurante para ele poder receber o cheque sem nem ter que ficar em pé.

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