Review: “Borat: Fita de Cinema Seguinte” de Jason Wolimer

O primeiro Borat foi lançado lá em 2006 em uma época que o mundo era muito diferente. Mas nem tanto. Os americanos já eram idiotas que elegiam um fascista genocida para ser presidente. Mas, no contexto internacional, digamos, existe uma diferença entre um fascista polido (Bush) e um tosco (Trump). Então digamos que, hoje em dia, menosprezar o povo norte-americano deixou de ser um hobby da esquerda e virou algo necessariamente básico a qualquer humano com o mínimo de ética. Poranto, um “Borat 2” vem em boa hora.

Lembrando que o filme original foi um sucesso inesperado. O personagem não era conhecido e o gênero mockumentário era nada além de um nicho para aficionados pelo cinema. Portanto quando “Borat” estreou e fez 270 milhões de dólares, a carreira de Sacha Baron Cohen (um judeu praticante, importante notar) decolou e os memes surgiram antes mesmo do termo meme surgir. Sua receita de fazer piadas racistas sob um estereótipo racista para refletir a naturalização do racismo do povo norte-americano foi um grande acerto. “Borat 2” não entrou na onda do sucesso e esperou 14 anos para acontecer. Nesse meio tempo muita coisa rolou. Os gringos, por exemplo, surtaram e elegeram um presidente que não era um completo monstro! Sim, a gente critica eles por Trump, mas entre ele e dois Bushes e um Reagan duas vezes, é bem claro que o padrão eleitoral não é um Barack Obama. E o Brasil, que na época surfava na onda pré-marolinha da economia lulista, também não havia cedido aos caprichos de um golpe parlamentar nem a loucura de eleger um completo fascista. São 14 anos que rendem um século de eventos.

Mas cá estamos. 2020 não é para os mais fracos e Borat vem ridicularizar isso. A história mostra o segundo reporter mais famoso do Cazaquistão trabalhando forçadamente em uma gulag quando é chamado para ir aos EUA entregar um presente – um macaco astro pornô – ao vice-presidente Mike Pence; que não gosta de ficar sozinho com mulheres, então talvez se sinta mais confortável com um símio. Acontece que a filha de Borat, Tutar, se enfia na jaula do macaco para tentar fugir aos EUA, se casar com Pence e virar a nova princesa Melania. E lá no meio disso tudo rola uma tal de pandemia do covid-19, que você talvez tenha ouvido falar, e as coisas tomam novo rumo.

Primeiras coisas primeiro: “Borat 2” foi o primeiro filme a ser filmado durante a pandemia do coronavírus, mesmo que isso não estivesse planejado. A produção seria apenas um novo retrato do racismo norte-americano, agora turbinado pela retórica trumpista que permite tudo, até mesmo pessoas escreverem “matem judeus” em um bolo e não piscarem. A pandemia aconteceu e Cohen viu uma oportunidade. Se trancou em uma casa com dois republicanos fissurados em teorias de conspiração do QAnon e vomitou todos os absurdos esperados a sair da boca deles. Para muitos, isso pode ser dar plataforma a loucura. No filme, isso é usado para reforçar o ridículo. Por que a gente lê esses absurdos diariamente em nossas redes sociais, mas quando uma sátira coloca isso na boca de um óbvio estereótipo surrealista, a piada se torna patético. Uma coisa é ouvir isso da boca de um parente. Outra coisa é quando ela sai do Borat. Importante percebemos quando os dois convergem.

No aspecto da história pré-corona, a narrativa foca na relação entre Borat e sua filha Tutar. Ela, que quer ser como Melania Trump, evidentemente tem uma visão limitada de mundo. E seu pai, que a educou com um manual de comportamento feminino que provavelmente foi escrito pela Damares Alves, não sabe a tratar como alguém que merece respeito. Quando ela conhece uma mulher que aceita a cuidar dela (me recuso a acreditar que a personagem não recebeu nenhuma instrução dos produtores, mas vai saber), ela aprende algumas coisas. E força seu pai a aprender também. E no final os dois chegam a uma resolução bastante otimista e, sinceramente, adorável na relação de ambos. Para um filme obviamente focado em mostrar o pior dos humanos, terminar em uma nota positiva é algo que esta sequência faz que é bem superior ao seu antecessor. Após o festival de absurdos, ainda se encerra com um letreiro estimulando a audiência a votar. Um reflexo, claro, da vindoura eleição norte-americana. Mas que serve de estímulo para qualquer população que se absteve de votar e permitiu a ascensão da naturalização da bizarrice que o filme exalta. Como o Brasil, por exemplo. Não existe nada que saia da boca de Borat que não sairia de maneira ainda pior do presidente Bolsonaro.

E o Borat, não custa lembrar, fala esses absurdos para ressaltar o absurdo. A função essencial de uma sátira. Mas o que acontece quando a sátira vira presidente da República?

Sasha Baron Cohen demonstra a habitual coragem em repetir o papel. Vai saber, será que nenhum daqueles gringos malucos tentou matá-lo? O ator, britânico e judeu, se permite um momento de sincera humanidade quando vai visitar uma sinagoga e conversa com duas judias que vivenciaram o Holocausto. A cena tem seus toques de humor negro, mas é visível a intenção na improvisação de Cohen em reforçar a mensagem de respeito que sai das duas mulheres. Destaque também para Maria Bakalova, ótima no papel de filha de Borat, não só por criar muito bem a personagem, mas ao demonstrar a mesma facilidade e coragem que Cohen na hora de improvisar perante o absurdo. Sua cena de entrevista com o ex-prefeito de Nova York, Rudolph Giuliani, é exemplar.

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