Review: “Era Uma Vez Um Sonho” de Ron Howard

O “excepcionalismo americano” (ou “Excepcionalismo Estadunidense”) é um conceito político de que os Estados Unidos são um país melhor que todos os outros, geralmente por motivos divinos ou religiosos, e que tem o direito de moldar o resto do mundo à sua imagem. A partir desta idéia surgiu o tal “American Way of Life“, propaganda do governo Norte Americano surgida após a sua vitória na Segunda Guerra Mundial – dividida com os soviéticos – para conter o avanço do socialismo através de mensagens de superioridade do modelo neo-liberal nos produtos culturais exportados por eles. No caso, o cinema Hollywoodiano. Nessa conjunção de ideias, os EUA é um país maravilhoso para se viver e se você vive mal, é por que não se esforçou Sendo que lá eles sequer oferecem saúde pública, então se você morre de gripe é culpa sua, não do sistema.

“Era Uma Vez Um Sonho” é um filme sobre um homem branco que sobrevive a uma educação familiar tóxica e vira advogado em Yale. Por que ele se esforçou. E se isso deu certo para ele, tem que dar certo para você também. Né?

Esta é a história real de J. D. Vance, garoto crescido no interior de Ohio sem pai, com uma mãe abusiva viciada em drogas e uma avó durona que provavelmente nunca abraçou a filha na vida toda. Vance resolveu contar sua história em um livro – atitude digna, é a própria história, ele que a conte – e vendeu muito bem, então Hollywood resolveu adaptar. Não li seu livro. Não tenho como comparar. Posso dizer que o texto de Vanessa Taylor (que colaborou com Del Toro em “A Forma da Água”) abusa do melodrama e pouco desenvolve os personagens centrais. Para um filme baseado em pessoas reais, faltou um pouco de realidade em como eles evoluem em suas jornadas.

E eu dou crédito a narrativa. A história em si não é fácil (o melodrama, por vezes, é jusificado) e tenho certeza que J. D. Vance tem todos os motivos do mundo para revirar seus traumas de infância como fonte de crescimento moral. Mas, vamos reparar, como a história narrada do ponto de vista de um homem pouca atenção dá as personagens femininas. A mãe de J. D. evidentemente tem um problema na relação com a mãe, mas isso é pouco explorado. Fora um breve flashback onde vemos a mãe ser vítima de violência do próprio marido, não fica bem entendido por que Bev e Mamaw tem tantas questões não ditas. E Mamaw, visivelmente uma mulher durona que aprendeu lições difíceis na vida, não demonstra um mínimo de suporte a filha doente. E só se dispõe a tomar conta do próprio neto (e dane-se a neta, que ela simplesmente ignora mesmo estando na mesma situação que ele) quando ela fica preocupada em que vai cuidar dele. Até então, ninguém havia cuidado e ela estava de boa.

E Bev, que claramente sofre de algum distúrbio emocional, dadas as suas crises de agressividade, facilmente cai em um vício de substâncias controladas. Quando ela quase tem overdose, o maravilhoso sistema de saúde não-público do excepcional país Estados Unidos não dá conta de atendê-la. E ela fica a disposição de cair novamente nas mesmas armadilhas. O filho toma a decisão correta – para ele – de seguir com sua vida. Mas o filme não dá a menor bola para Bev. Aparentemente a pessoa real está sóbria desde então. Como ela chegou lá, não sabemos. Com certeza se esforçou? Sim. Mas não com apoio do próprio governo. E não o suficiente para virar um filme sobre como ela não virou advogada, apesar de tudo.

Veja bem, esta não é uma análise sobre as pessoas reais que passaram por inúmeras dificuldades. Com certeza Vance sabe muio mais de si do que eu. E tem motivos para orgulhar de sua trajetória. E sabe-se lá o que Mamaw e Bev passaram para terem suas vidas travadas no inicío da trajetória. O que analiso aqui é o filme, que vende a imagem de um país onde “basta se esforçar” e ignora a trajetória de duas mulheres que se esforçaram perante inúmeras dificuldades, mas nunca viraram advogadas de Yale. O texto as vende como personagens fortes que superaram obstáculos. Mas o filme se encerra com o homem bem sucedido em uma entrevista de emprego. E dizendo “estou feliz por estar aqui”. É, tematicamente falando, bastante questionável.

A direção é de Ron Howard, que por vezes acerta em cheio (“Rush – No Limite da Emoção”, “Apollo 13″ e Frost / Nixon” são bons exemplos), mas geralmente é encarregado de uns projetos bem meia bocas com uma temática extremamente acrítica. Coisas como “Uma Mente Brilhante”, que é direitinho, mas ausente de senso crítico sobre o tema. “Era Uma Vez Um Sonho” cai nessa armadilha. Emocionalmente falando, acerta em ceio – não se sinta culpado de se emocionar e ceder a trilha sonora de Hans Zimmer tocando piano. Mas não adiciona um toque crítico a nada dito. É, sim, por fala de descrição melhor, propaganda estadunidense, mesmo que também seja um perfeito exemplo de lição do que diabos tem de profundamente errado em uma sociedade que não cuida dos próprios cidadãos.

O elenco é encabeçado por Amy Adams, que é um talento incrível e aqui se esforça a ganhar um Oscar. Mas sei lá. Faltou algo. E a gente sabe o que é e se chama “um bom texto”. Glenn Close tem mais chances com sua estatueta, pois sua personagem Mamaw não é dadas grandes momentos, mas por natureza necessita de uma criação mais exigente. Sim, Close “se transforma” em uma senhorinha real e faz um trabalho louvável. E a Academia adora isso. Aplausos, ela merece. Mesmo que todo seu esforço físico não se transmite nas frases medíocres que ela tem que dizer.

Gabriel Basso (“Super 8”), Haley Bennett (“Sete Homens e um Destino”) e Freida Pinto (“Quem Quer Ser Um Milionário?”) completam o elenco e fazem muito bem o essencialmente essencial.

 

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