Review: “Mank” de David Fincher

“Cidadão Kane” é costumeiramente lembrado como um dos melhores filmes da história do cinema, quando não é no mínimo considerado um dos mais influentes. E de fato tem muito mérito em sua fama. Primeiro por que realmente é bom. Segundo por que inovou bastante em muitas técnicas, como alguns ângulos inovadores de câmera e na narrativa não-linear. E terceiro por que sua história, sobre um magnata da mídia que usa de sua inflência financeira para controlar o jogo político, se tornou algo atemporal. Como filme, “Cidadão Kane” é tão relevante em 2020 quanto foi em 1941. E isso diz muito de uma produção.

E não se fala de Kane sem se falar em Orson Welles. Ainda com seus poucos vinte anos ele já havia causado tremendo burburinho com uma adaptação de rádio para “Guerra dos Mundos”, algo que o levou quase imediatamente a ter contrato em Hollywood, com o estúdio RKO. Seu primeiro projeto foi justamente “Cidadão Kane”. Que, famosamente, não levou o Oscar de melhor filme (perdendo para algum outro título que ninguém lembra qual foi) e foi um fiasco de bilheteria, mas imediatamente foi considerado uma obra-prima. E, novamente, Orson Welles, ator, diretor, produtor e co-roteirista levou todos os créditos. E virou gênio. “Mank” é um filme que lembra que outra pessoa também escreveu Kane.

Herman Mankiewicz foi um dos mais consgrados roteiristas de Hollywood dos anos 1930 e tinha uma tremenda reputação criativa. E também era um alcoólotra. Foi chamado pessoalmente por Welles para escrever um novo filme o fez inspirado em William Randolph Hearts, magnata da mídia que ele tinha conhecimento íntimo. “Mank” fala desse processo, mas o texto de Jack Fincher (escrito antes de sua morte, em 2003) é focado exatamente naquilo que torna “Cidadão Kane” tão memorável. Claro que Fincher e a direção de David Fincher (seu filho) querem homenagear o trabalho de Makiewicz e fazer saudações a influência de Kane e seu legado cinematográfico. Mas falar sobre um filme sobre magnata da mídia sem falar sobre a influência política de Hollywood seria um desperdício.

Difícil saber o quanto de tudo é verdade. E alguma falhas em datas indicam que existe muita fabricação aqui. Entretanto, ninguém há de se surpreender, em descobrir que donos de estúdio de Hollywood teriam interesse em fabricar noticiários – err, como se chamava fake news nos anos 30? – para interferir em resultados da eleição. E é curioso ver um monte de velho rico branco esnobanco a ascenção de Hitler na Alemanha enquanto treme de medo com a possibilidade de um governador socialista ascender na Califórnia. Esse tipo de coisa existe até hoje e não vai faltar exemplo. Capitalismo pode não se dar bem com fascismo, mas adora passar um pano para ele se a outra alternativa forminimamente transformativa. O que é um genocídiozinho perto da ameaça de deixar de ser menos milionário, né verdade?

“Mank” pega esse tema e o descorre muito bem, narrando não-linearmente o processo de produção do roteiro de Kane com as descobertas que Makiewicz faz sobre as influências políticas ocorrendo nos estúdios de Hollywood. Sim, tudo tem um ar de noir, apesar de ser um filme sobre produção cinematográfica. Se deu certo para “Crepúsculo dos Deuses”, o que custa repetir? E inúmeros créditos devem se dar ao estilo artístico aqui empregado. Muitos filmes tentam, mas “Mank” realmente parece ter sido feito no final dos anos 30. A fotografia, os cortes, os enquadramentos, a maravilhosa trilha sonora. Todo um trabalho excepcional. E existem inúmeras homenagem a famosos momentos de “Cidadão Kane”, realizados de maneira discreta, que caem muito bem no contexto.

A produção de época é absolutamente impecável.

E “Mank” é aquele tipo de filme que irá ser esnobado pelo grande público (apesar de estar sendo lançado pela Netflix) exatamente por esses mesmos detalhes. Não é uma produção comum, tem um tom lento e, quem não se deu ao trabalho de assistir “Cidadão Kane”, talvez não se dê ao trabalho aqui também. O que é um desperdício. Além de ter um primoroso trabalho de David Fincher (que raramente erra, indiscutível seu talento como diretor) é também uma produção importante. Fala sobre uma questão política em um momento conveniente. E qualquer texto político sobre os anos 30 se torna relevante em 2020, não preciso nem explicar o por que, pois vemos em tempo real esta farsa se repetindo. Ter um que se aproprie de maneira tão pontual e executada de maneira tão primorosa é algo a ser celebrado.

O elenco é liderado por Gary Oldman (já oscarizado como Churchill, mas querendo outra estatueta sem maquiagem pesada desta vez), Amanda Seyfried (excelente), Lily Collins (funcional), Tom Pelphrey, Tuppence Middleton e Charles Dance.

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