Review: “Mulher-Maravilha 1984” de Patty Jenkins

“Mulher-Maravilha 1984” provavelmente é o filme mais complicado de analisar desde “Star Wars: Os Últimos Jedi“. Sendo que, ao menos neste caso, eu gostei um pouco do resultado final. Mas definitivamente é um produto estranho. Acredito que a maioria ficará decepcionado – principalmente em relação ao antecessor, que foi muito bem acabado e direitinho – e mesmo quem gostar ficará ao menos com aquela impressão de “o que diabos eu acabei de assistir?”. Como no já mencionado “Os Últimos Jedi”, é um filme muito bem intecionado em sua temática, mas que fracassa completamente na hora de narrar uma história coesa.

Irei evitar spoilers, mas certos assuntos precisam ser debatidos para entender o que deu errado.

“Mulher-Maravilha 1984” se passa muitas décadas depois de “Mulher-Maravilha” – tá aí no nome, né? – e mostra Diana Prince trabalhando em um museu, aparentemente muito bem encalhada, curtindo o luto da morte do seu romance de Primeira Guerra, Steve Trevor. No mesmo museu trabalha Dra. Barbara Minerva, uma mistura de Pamela Isley ou Selina Kyle dos filmes do Batman dos anos 90. Ela é tímida e desengonçada, mas entra em posse de um artefato misterioso que lhe dá o poder de realizar seus desejos e ela deseja se tornar igual a Diana Prince – o que a torna super-poderosa, claro, mas também uma vilã. Por que sim. E ainda temos Maxwell Lord, um empresário fajuto que quer ter a pedra para realizar seu desejo de ser o homem mais poderoso do mundo. Ah, e a própria Mulher-Maravilha usa a rocha para trazer Steve Trevor de volta.

O enredo inteiro gira em torno dessa tal rocha mágica, o que se torna um problema. É bem óbvio que o texto quis amarrar o arco dos três personagens centrais (Diana, Barbara e Maxwell) em torno da idéia de realizar seus desejos – mesmo que através de uma mentira. O problema é que isso pode ser um bom ponto de partida, mas como narrativa não rende eventos interessantes. Após uma cena de ação inicial em um shopping, a Mulher-Maravilha só entra em ação novamente depois de uma hora de filme. E esse tempo todo é focado nos três personagens indo atrás da rocha ou usando seus desejos. Para algo que deveria ser o ponto de partida da narrativa, ficar o primeiro ato inteiro preso no mesmo tema se torna cansativo. Não ajuda que quando, finalmente, a história parece andar um pouco, no segundo ato, tudo fica muito confuso. Desejos são realizados, mas eles tem custos, então um monte de coisa começa a acontecer ao mesmo tempo e nada faz muito sentido.

A vilã que adquire o poder de… Usar salto alto!

Por que Steve Trevor “ressucitou” no corpo de outra pessoa? O desejo de Barbara foi para ela se tornar mais como Diana, mas se ela não sabe que Diana tem poderes, por que ela ganha poderes – e depois vira um gato, ainda por cima? O mundo inteiro entra em caos por causa de todos os desejos sendo realizados por Maxwell, ninguém reparou que tinha nada de errado não? E como assim ele cosegue “tocar” as pessoas usando uma transmissão televisionada para realizar os desejos de todo o planeta? Por que uma bomba atômica pode surgir do nada, mas Steve Trevor precisa entrar no corpo de alguém? Ou seja, uma bagunça. Não ajuda muito o fato de ser uma bagunça entediante.

Por fim, a narrativa chega a um ponto final. Diana tem que aprender a se desfazer do seu desejo – afinal uma verdade é melhor que uma mentira. É a sua grande lição. Ok. E o texto consegue amarrar isso com a história do vilão central, Marxwell; apesar disso resultar em outro filme da Mulher-Maravilha que termina com ela dando discuso de bondade e empatia. E a Dra. Minerva nisso tudo? Ela evidentemente gostou de virar um membro do elenco de “Cats”, logo seu arco foi desperdiçado? A melhor comparação que consigo fazer é com “Batman – O Retorno”, em que temos dois vilões – um com o plano maligno central, outro que se une a ele por conveniênca – que não sabe muito bem o que fazer com o vilão secundário. E Barbara não tinha um arco a concluir, qual a necessidade de associar tão fortemente sua história de origem a trama central? Não poderia ela simplesmente ser a tal Mulher-Leopardo dos quadrinhos, que aparece para enfrentar a Mulher-Maravilha no final?

Todos esses problemas tem uma causa óbvia: o roteiro. A direção de Patty Jenkins está boa, principalmente nas, sei lá, três cenas de ação. E ela consegue boas atuações do seu elenco. Mas a narrativa não anda de jeito nenhum, presa a uma história desnecessariamente complicada e personagens com motivações mal resolvidas. Por exemplo, Marxwell Lord é evidentemente inspirado em Donald Trump – e sua ambição de ter poder apenas por ter poder levar a quase destruição do mundo é algo muito fácil de assimilar. E isso é legal de se interpretar, dá uma contemporaneidade ao texto. Mas não faz automaticamente o vilão se tornar interessante, simplesmente por que ele lembra o Trump. Para um filme com tantos personagens (que inclusive se deu ao trabalho de ressucitar um do anterior!) tudo ficou muito amontoado e confuso demais.

Gal Gadot volta como Mulher-Maravilha e ela realmente cresceu no papel. Tem ao menos duas cenas dramáticas boas e ela dá conta do recado. Chris Pine volta como Steve Trevor possuindo o corpo de um homem aleatório como se fosse Pazuzu. Por ele ser apenas uma manifestação do desejo de Diana, seu personagem é relegado a ser apenas um acessório a ela. Pedro Pascal (“The Mandalorian”) é o Maxwell Lord inspirado em Trump, mas graças a Deus sem repetir seus trejeitos. Já basta um Trump para acompanhar nessa vida… Ele está bem, apesar do personagem se tornar cansativo demais lá pelo terceiro ato. Kristen Wiig (“Missão Madrinha de Casamento”, “Caça-Fantasmas”) é a vilã Mulher-Leopardo, que parece se esforçar bastante em desenvolver as características de vilania de seu papel lentamente, mas ainda acho que o texto não a ajudou a compor. Ela basicamente vira uma Hera Venenosa de “Batman & Robin” lá pelo clímax, devidamente condicionada a besteirol exótico feito para o herói ter que enfrentar alguém. E sumir de cena quando a narrativa precisa ser encerrada.

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