Review: “Relic” de Natalie Erika James

Os anos 2010 foram definitivos para o gênero horror abandonar o besteirol das produções de massa (não que filmes eficientes como “Invocação do Mal” não tenham feito sucesso) e abraçado o cinema indepenente como exercício narrativo. Incrível pensar que pulamos de “Jogos Mortais” e trocentos remakes sem inventividade na década anterior para filmes como “Hereditário“, “Corra!” e “O Homem Invisível“. Algo se deu no ramo e ganha os amantes do cinema de alta qualidade e fãs de um gênero desprezado por muito, mas muito tempo. “Relic” entra nessa nova safra de “horror metafórico” que irá produzir muito mais debate que a maioria dos “dramas oscarizados” que serão esquecidos semana que vem.

A história mostra uma mãe a filha indo para a casa da avó, quando esta foi dada por desaparecida pelo vizinho. A casa, bagunçada e sem o menor cuidado, parece abandonada. A polícia é acionada e, logo, a matriarca aparece. Na cozinha, fazendo um chá. Como se nada tivesse acontecido. Mãe e filha entram em conflito sobre o que fazer com a avó. Logo ambas descobrem que algo de mais sombrio se passa no meio disso tudo.

Pode parecer que estou fazendo uma sinopse muito curta para evitar spoilers, mas esse na verdade é todo o primeiro ato de “Relic”. A narrativa é lenta e contemplativa. O mistério todo é menos no “o que está acontecendo” e mais pelo “como está acontecendo”. E já no segundo ato se torna tudo muito claro, mesmo que o mistério do “sobrenatural” que afeta a casa ainda venha a render algumas surpresas no final. Mas a história não está aí para assustar com sustos descabidos e fantasmas barulhentos. O horror é quase gótico (o favorito do cinema britânico), desenvolvido em apenas uma locação e focado no psicológico. Se você estiver na expectativa de um clímax explosivo com uma avózinha vomitando sopa de ervilha, desista.

Como no supracitado “Hereditário”, o terror é real e ainda assim metafórico. Sim, existe uma “entidade maligna” se manifestando nas paredes da casa. O que ela é, não importa. O que ela causa, sim. Entra a metáfora. Evitando spoilers, mas “Relic” pondera sobre a dor de filhos que precisam lidar com o envelhecimento dos pais. O cuidado, as surpresas, os temores. O final lida com uma macabra, mas sensível transformação que irá fazer refletir sobre o drama de ver alguém que você ama se desfazer.

A direção extremamente confiante é de Natalie Erika James, surpreendentemente fazendo sua estreia na função. Boas estreias acontecem (o já mencionado “Hereditário” foi a estréia de Ari Aster), mas nunca deixa de ser uma surpresa. “Relic” tem bons enquadramentos e bom ritmo – sim, ele é muito lento, mas a lentidão é intencional, não um demérito. As atuações também são muito boas, então Erika James realmente conseguiu fazer algo muito impressionante. Terá uma carreira promissora, espero.

As já mencionadas boas atuações ficam por cargo de Emily Mortimer (“O Retorno de Mary Poppins”) como a mãe e Bella Heathcote (“Sombras da Noite”) como a filha. Como a narrativa é basicamente centrada nas duas dentro de uma casa, elas são responsáveis por carregar a história toda com seus corpos – seja nas sutis cenas de horror dos primeiros dois atos ou nas sequências dramáticas mais delicadas. Destaque para a Mortimer no momento em que ela conversa com a sua mãe enquanto esta enterra um album de fotos no jardim. Por falar na avó, Robyn Nevin (“Deuses do Egito”) merece aplausos pelo seu trabalho como a figura atormentada por uma sombra que a persegue para onde ela vai.

 

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