Review: “Bela Vingança” de Emerald Fennell

Já em sua primeira cena, “Bela Vingança” deixa o recado da história bem claro: cenas de homens dançando lentamente em uma casa noturna, com o enquadramento focado em seus corpos. Essa não é uma história sobre seus corpos. Esse é um filme do ponto de vista feminino. Sob uma direção mais convencional, a abertura seria com os quadris femininos rebolando sensualmente. Não é o caso e a introdução é perfeita para o clima da jornada a seguir. Eis um thriller de vingança feminino, mas sem aquela visão masculina da vingança. É uma revanche feminina mesmo.

Cassandra é uma jovem de 30 anos que abandonou sua faculdade de medicina (quando era uma “promissora jovem mulher”, como o título original insinua) após um evento traumático. Sua melhor amiga, Nina, foi sexualmente abusada e o estuprador absolvido do crime. Dedicada a vingar-se de uma sociedade que permite tais abusos, tanto o sexual quanto o da justiça, ela estabelece um plano: ir para bares e casas noturnas, fingir-se de bêbada e vulnerável para ser “resgatada” por um “cara legal”; tais “cavalheiros” aproveitam-se da situação, claro, e quando o abuso é introduzido, Cassanda revela estar sóbria. “Ei, o que você está fazendo?”

Opa colega, o que foi, perdeu o tesão? Pois é. Evidentemente, o plano dá certo.

Claro que, como todo thriller de vingança, isso tem um custo emocional a Cassandra. Isolada, inerte e anestesiada. Até aparecer um, err, “promissor jovem homem” que ela havia estudado faculdade de medicina antes e o passado voltar a assombrá-la. Os responsáveis pelo abuso de Nina seguiram suas vidas e, diferente de Cassandra, estavam plenos e realizados. Como se nada tivesse acontecido. Como se somente Cassandra soubesse quem foi Nina. Hora da vingança.

“Bela Vingança” é a estréia da direção de Emerald Fennell – ela tradicionalmente atua e pode ser vista como Camilla Parker no seriado “The Crown”. É sempre fascinante ver uma estreia tão madura e competente. Fennell não desperdiça nem um enquadramento, mesmo quando é apenas para ser esteticamente bonito. Nada errado nisso. Mas, geralmente, o filme fala pelas suas imagens. O uso de cores, os cortes, o figurino; é tudo tão bem montado que parece ter saído de alguém treinado por Tarantino. Sendo que a vantagem de Fennell é, diferente de Tarantino, não abusa da violência gratuitamente. Um thriller de vingança pode ser violento e divertido, sem necessariamente fazer você rir da violência.

O roteiro também é dela e a história irá causar mais debate que a competente direção. Sem entrar em spoilers (assista ao filme com o menos de informação possível!), o segundo ato é marcado por uma reviravolta que disvirtua um pouco dos planos da história. É óbvio que algo previsível não estava nos planos do texto, portanto Ferrel subverte a reviravolta e marca seu clímax com uma conclusão atordoante, dolorida e catártica. Tudo ao mesmo tempo. Não sei como ela conseguiu tal milagre, mas é uma conclusão polêmica e memorável. Destaque também para a trilha sonora, que além de muito bem se apropriar de músicas pops e covers criativos que se encaixam perfeitamente nas cenas, é um amontoado de muita música legal também. Sério, o cover de “Toxic” é maravilhoso.

O elenco é encabeçado por Carey Mulligan, de “Educação”. Completamente fora da sua zona de conforto (Mulligan geralmente interpreta mulheres recatadas e calmas, mesmo que fortes em personalidade), ela é uma revelação. Sua Cassandra é perturbada e sofrida, mas também um furacão de confiança e carisma. Uma protagonista excelente de se acompanhar (mérito também do texto) montada por uma performance poderosa. Não me irá surpreender se a carreira de Mulligan vier a ser definida por sua Cassandra de agora em diante.

Além dela temos Bo Burnham (diretor de “Oitava Série”), Laverne Cox (“Orange is the New Black”), Jennifer Coolidge, Alfred Molina e Allison Brie. Todos bem construídos por seus atores, principalmente Burnham como o “cara legal” que realmente quer ser um “cara legal”. Evidentemente todos são sugados pela energia de Mulligan, o que não é problema algum. O filme é dela mesmo. Ou melhor, o filme é de Cassandra. E Nina. ;-)

Esse post foi publicado em Filmes, Reviews e marcado , , , , , . Guardar link permanente.

Comente aqui...

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s